Pescadores denunciam morte de peixes na Capital

peixes-mortosPescadores que atuam na região de Porto Velho denunciam a morte de peixes que não estariam conseguindo ultrapassar a barragem da Usina Hidrelétrica Santo Antônio, no rio Madeira, e acessar o canal de transposição, construído pelo empreendimento com o objetivo de facilitar o processo de migração do pescado. De acordo com os pescadores, os peixes se chocam na barragem e muitos morrem com o impacto, mas a situação não consegue ser visualizada porque naquele trecho do rio é alta a incidência de peixes da espécie candiru (Vandellia cirrhosa) e outro peixe que identificam como pintadinho, predadores naturais e que estariam se alimentando dos peixes que morrem com o impacto.

Num dos trechos, a parede construída de concreto possui aproximadamente 30 metros de altura, uma canalização na parte superior que libera água de maneira abundante e produz som e efeito semelhante ao de cachoeira. São em trechos parecidos com este – e ao longo da barragem existem vários – que os peixes se confundem, saltam, e esbarram nas paredes de concreto. “Todo dia morre peixe. Acredito que morrem muitos”, diz Leonardo Meanth Garcia, pescador e segundo secretário da Colônia de Pescadores e Aquicultores Z1 Tenente Santana, de Porto Velho.

Manutenções nas turbinas da Usina

Os pescadores também acreditam que há mortandade de peixes quando são realizadas manutenções nas turbinas da Usina. “As turbinas são desligadas para a manutenção e enchem de peixe. Quando são ligadas novamente, muitos peixes conseguem sair de lá, mas completamente mutilados”, informa Leonardo.

César Costa, 40, que é pescador no rio Madeira desde a infância, diz que também já presenciou a morte de peixes nas proximidades da barragem da UHE Santo Antônio. “Acho que tem que ser feito um estudo para comprovar a morte dos peixes no rio Madeira. A quantidade de candiru está crescendo demais.No inverno a situação fica ainda pior. O peixe fica atordoado e não está subindo. Fica morrendo nos pés da usina”, protesta.

Água do rio Madeira é muito turbulenta

Célio Lopes é um dos pescadores que acredita que os peixes estão morrendo, mas não conseguem emergir porque servem de alimento para outras espécies. “O fato de os peixes comerem em seguida da morte mascara a situação. Mas acho que é um problema ambiental. As autoridades têm que tomar uma atitude para resolver”, convoca.

Ribeirinhos

Célio Lopes lembra que o ribeirinho vive da pesca, e que esta é sua principal fonte de renda, por isso está preocupado com a subida dos peixes. “O rio Madeira não é berçário de peixes, ele é uma passarela. Um caminho para os peixes que vão povoar outros rios de água limpa, mas com a barragem, eles podem estar sendo impedidos de prosseguir o seu curso. Acredito que a pesca em Guajará-Mirim e Nova Mamoré devem estar sendo afetadas”, preocupa-se. “É porque a água do rio Madeira é turbulenta e tem os outros peixes que comem, se fosse parada, com toda certeza os peixes mortos boiavam”, finaliza.

Canal facilita percurso

Procurada para se pronunciar sobre a denúncia dos pescadores, a porta-voz da Usina Hidrelétrica Santo Antônio, Marcela Velludo Tognetti, bióloga, analista e gestora do programa de conservação da Ictiofauna, explica que o empreendimento construiu um canal para que os peixes possam continuar o processo de subida no rio Madeira. O canal, tecnicamente chamado de Sistema de Transposição de Peixes (STP) possui cerca de um quilômetro, dez metros de largura e foi construído na margem direita do rio. Pelo canal, peixes especialmente os bagres (os mais vistos) continuam seu percurso aparentemente sem problemas.

O canal começou a operar em 2011, após o enchimento do reservatório (lago) e dois anos de operação de um canal experimental, construído na região da cachoeira de Teotônio e no qual os técnicos analisaram a movimentação do pescado, velocidade e vazão do rio e outras circunstâncias relativas à subida dos peixes, que colaboraram para a efetivação do canal definitivo. Como resultado o projeto conta, por exemplo, com a construção de defletores – barragens naturais constituídas de pedras nas quais os peixes descansam. “O canal artificial tem o objetivo de substituir a corredeira natural do rio”, resume Marcela.

Monitoramento do pescado

De acordo com ela, o empreendimento possui duas maneiras de realizar o monitoramento do pescado na região do Madeira, uma é através do sistema de telemetria, no qual os peixes capturados no leito do rio são marcados com chips e seus movimentos acompanhados por um sistema que envolve antena de rádio. Outra forma é através da captura no canal de transposição. Os peixes são identificados, medidos, pesados e devolvidos ao canal.

Quanto aos peixes se debaterem na barragem, Marcela afirma que no processo natural isso também acontecia. “Os peixes estão procurando por onde passar”, diz. Ela acrescenta que os técnicos eventualmente abrem o vertedouro para atrair os peixes para a entrada do canal.

Usina não observou as mortes

A bióloga afirma que os peixes migram pelo canal de transposição durante todo o ano e não só na época da piracema e que por isso, opera o ano todo. “Fica aberto todo o tempo para não interferir na transposição. Só houve um momento em que foi reduzida a vazão, para fazer a manutenção nos defletores, no mês de agosto, mesmo assim tiramos cerca de 200 toneladas de peixes”, detalha.

De acordo com Marcela Tognetti, os técnicos não identificam a morte dos peixes denunciadas pelos pescadores. “Não observamos peixes que tenham morrido em função de bater na barragem. Nem mesmo a equipe contratada para fazer o monitoramento”, diz.

Segundo o superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama/RO), Renê Luiz de Oliveira, o orgão desconhece a denúncia feita pelos pescadores, mas vai in loco verificar a situação.

Fonte: Diário da Amazônia

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