Trocando corrida pelo celular, crianças podem perder habilidades motoras

criançasMenos pega­pega na rua e mais videogames. Resultado: as crianças que cresceram com uma tela na mão podem ter habilidades motoras menores, e a sua dificuldade para correr ou subir em árvores preocupa pais e especialistas. “Você joga a bola e as crianças não conseguem pegar. Elas não sabem mais brincar: ficam tão ligados na TV, nos joguinhos…”, diz a educadora física e presidente da ONG Instituto Movere, Vera Perino Barbosa. “São atividades que deveriam ter sido trabalhadas na primeira infância, mas elas cresceram sem isso”.

As explicações dos pais para a decadência das brincadeiras físicas misturam a violência urbana –os pais ficam mais tranquilos mantendo os filhos dentro de casa– com o próprio gosto das crianças por aparelhos tecnológicos. “Ela nunca gostou muito de sair”, afirma a operadora de telemarketing Kelly de Medeiros, 27, sobre a rotina da filha Heloísa, 11. A garota é fã mesmo de joguinhos no smartphone como o Flappy Bird, em que o objetivo é fazer um pássaro desviar de obstáculos. “Gosto também de ver vídeos do One Directon no YouTube”, conta a garota. Além disso, a maior parte das amizades da menina eram virtuais.

O celular acabou virando o grande companheiro de Heloísa. “Parece que o celular faz parte da roupa “, diz a avó, Neide Souza. A inatividade trouxe consequências: com 1,60 m de altura, Heloísa já tinha superado os 80 kg. Há três meses, após a recomendação de uma médica, Heloísa começou a praticar tae kwon do.

O problema também afeta Alef, de 11 anos. “Se puder, fica no tablet, computador ou Xbox o dia todo”, diz a mãe, Juliana Freitas. A família mora na cidade de Divinópolis, em Minas Gerais. Ela até tentou colocar o filho no basquete, já que o irmão mais velho fazia, “mas sempre reclamando”. Não deu muito certo. Até em acampamentos a perda de habilidade motora das crianças é sentida. No Sítio do Carroção, em Tatuí, no interior de São Paulo, uma brincadeira com cipós teve de deixar de ser realizada, porque as crianças já não conseguiam mais agarrá­los como antes.

O psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, diz que a mudança do estilo de vida é cada vez mais evidente. “As preferências de relacionamento da nova geração passam pela mídia digital. “De alguma maneira, esses recursos roubam a criança daquilo que a gente imagina ser o certo a fazer” , diz. Em termos médicos, o ideal é que as crianças façam 60 minutos diários de atividades físicas, diz a endocrinopediatra Denise Ludovico, da Associação de Diabetes Juvenil.

No entanto, segundo ela, já é possível atingir bons resultados com crianças obesas com 40 minutos de atividades, três vezes na semana. Se a atração causada pelos aparelhos eletrônicos for inevitável, há ao menos videogames que respondem ao movimento, como o Wii, da Nintendo. Segundo Nabuco, seria uma maneira de tentar compensar o incompensável.

Fonte: Folha

COMPARTILHAR

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA