Dependência do celular virou doença

celularO estudante de engenharia Felipe Gomes sempre dorme tarde. Geralmente, às 23h40 ele vai para a cama. Porém, demora para fechar os olhos. A luz que alerta sobre uma notificação no celular pisca sem parar e, intuitivamente, como se não pudesse se conter, ele pega o aparelho e desliza os dedos para liberar a tela. Clica no ícone da rede social que mais utiliza e verifica a única notificação que tem. Para não “perder a viagem”, volta ao feed de notícias da rede e passa a rolar a tela para ver as “novidades”. Mesmo que as tenha checado apenas cinco minutos antes de entrar no quarto.

Vê fotos de amigos, textos que só lê o início, links que salva para ler em outro horário (mesmo sem saber quando o fará) e depois entra no aplicativo de mensagens instantâneas. Os vários grupos de quais faz parte estão sempre animados depois da meia-noite: amigos e colegas mandam piadas, fotos e os famosos “memes” – imagens engraçadas que viralizam as redes sociais. Assim que vê tudo “o que tem que ver”, desliga a tela e aconchega-se na cama para dormir; no entanto, as notificações continuam chegando. E o ciclo só termina depois que o sono já está pesado demais para manter os olhos abertos.

No dia seguinte, assim que o próprio smartphone soou o alarme para que acorde, Felipe desliga o alerta e abre os mesmos aplicativos que o fazem dormir muito depois da meia-noite. E a sensação de estar sempre “bem informado” sobre o que acontece ao redor, ainda que o universo todo em que esteja inserido seja apenas de amigos e colegas de faculdade, é tão boa que acaba gerando outros acessos frequentes durante todo o dia.

Medo de ficar sem celular pode provocar doença

celular1As cenas descritas acima soam desconfortáveis para quem lê, mas uma pesquisa divulgada pelo Ibope revelou que 19% dos usuários brasileiros se declaram “viciados” em celular – o que torna cenas como a do estudante Felipe Gomes, de 22 anos, muito mais comuns. “Não acho que eu seja viciado em celular”, alega. Outra característica que podem ter deixado o número abaixo do que realmente existe no País é a negação de que exista o vício sobre o aparelho.

O vício em celular já é tratado como doença em diversos países – inclusive no Brasil – e recebeu o nome de Nomofobia, que é a abreviação de no mobile phobia (medo de ficar sem celular, na tradução literal do inglês). Outra pesquisa do Ibope revelou ainda que 59% dos usuários de celular mandam mensagens ou checam notificações enquanto dirigem – o que poderia provocar sérios acidentes. O recente estudo “Mobilidade Brasil 2008” ainda revelou que 21% dos viciados são mulheres e 23% são jovens. E um em cada cinco jovens brasileiros se sente abandonado quando não recebe nenhuma mensagem ou notificação.

O estudante Felipe Gomes confirma a afirmação. “Quando não recebo nenhuma mensagem tenho a sensação de que tem algo errado ou que as pessoas estão me evitando. É algo bem estranho”, explica. O Ibope revelou também que, no geral, cerca de 80% dos donos de celulares no Brasil checam o aparelho ao menos a cada meia hora. O número é mais preocupante ainda quando falamos de curto espaço de tempo: 36% checa o celular de cinco em cinco minutos e 24% a cada quinze minutos.

Escolas tomam medidas contra o uso

celular2Como os maiores viciados em celular se encontram na faixa de adolescentes, escolas de Porto Velho vêm enfrentando problemas no controle dos aparelhos dentro das salas de aula. Caso da Escola Estadual Roberto Pires, situada no bairro 4 de Janeiro. “Nós temos um regimento que diz ser proibido o uso do celular dentro da sala de aula. No pátio, na hora do intervalo, durante os 15 minutos eles são livres para usarem os celulares e acessarem a internet”, diz a diretora Elisianie Rabelo Vaz.

Na escola sob gestão de Elisianie há sinal de Wi-Fi disponível para os alunos – que é ativado durante os intervalos; mas a medida de disponibilizar internet gratuita e de qualidade apenas nos horários sem aula não inibe os estudantes de acessarem as redes sociais. “Com o acesso de dados móveis e internet 3G, tem gerado muita complicação na escola. Quando o celular é usado pelo bem comum e com responsabilidade de cidadania é ótimo, mas no momento atual está muito complicado”, informa.

A diretora ainda revela que a falta dos pais que trabalhem a questão com os filhos é um dos fatores que mais afetam as medidas de diálogo entre professores e alunos sobre o uso consciente dos celulares. “Os pais precisam orientar os filhos em casa, apesar de termos diálogo com os alunos. Não existe uma lei que permite que tiremos o celular do aluno e entregar só para os pais, então só podemos usar o diálogo”, diz. Elisianie lamenta o fato de que todos os professores precisam estar “batendo sempre na mesma tecla”. Ela acredita que o problema só será contornado quando os pais e professores caminharem juntos para a resolução da questão.

Regimento escolar discutido com os pais

Já em uma escola particular de Porto Velho, um regimento sobre o uso dos aparelhos móveis foi discutido com os pais – que aprovaram as medidas para evitar o uso do celular na sala de aula. “As regras disciplinares aqui são muito cobradas. As escolas estão inseridas em um contexto em que as tecnologias são muito mais evidentes, então o que temos feito é selecionar momentos específicos para uso destas tecnologias”, explica Philip Auziel, coordenador do Ensino Médio Integral do Colégio Objetivo.

Aparelhos como smartphones e tablets são liberados para uso dos alunos em horários específicos. Porém, em caso de desrespeito às regras, o regimento rígido é colocado em ação. “Primeiro temos a advertência verbal, na reincidência o aluno assina uma advertência escrita, o celular é retido e os pais são chamados na escola. Já se o aluno continuar insistindo no uso, temos medidas disciplinares como a suspensão”, afirma Auziel.

Fonte: Portal SGC

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