quarta-feira, junho 29, 2022

Síndrome respiratória: alta de casos em crianças põe estados em alerta

Nas últimas semanas, estados têm vivenciado um caos na saúde pública provocado pelo aumento de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em crianças de até 11 anos. Em Pernambuco, por exemplo, a fila por um leito em unidade de terapia intensiva (UTI) pediátrica e neonatal chegou a ter 90 crianças. Pelo menos dois bebês morreram à espera de vaga.

O pesquisador e coordenador do InfoGripe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Marcelo Gomes, explica que a alta está relacionada, em menor grau, a vírus respiratórios, como o da Covid e da gripe. No entanto, o que causa mais preocupação é o surto de Vírus Sincicial Respiratório, que afeta principalmente crianças entre 0 e 4 anos.

De acordo com o especialista, o aumento tem sido observado pelo menos desde fevereiro, momento que marcou a volta às aulas presenciais em instituições de ensino públicas e privadas. Em conjunto com a flexibilização das medidas de prevenção contra a Covid-19 — como a desobrigação do uso de máscaras e a liberação de grandes eventos —, o cenário favoreceu a circulação dos vírus.

“É diferente do que a gente viu no início do ano letivo de 2021, que ainda preservava o ensino a distância ou o modelo híbrido. Agora, não, foi fundamentalmente presencial”, observa Marcelo.

Com o aumento dos casos de SRAG em crianças, alguns locais já voltaram a adotar as medidas preventivas. Em Minas Gerais, as prefeituras de Betim e Nova Lima retomaram a obrigatoriedade do uso de máscaras em escolas, como forma de evitar a proliferação das doenças infecciosas. Em São Bernardo do Campo (SP), o acessório também voltou a ser exigido em espaços públicos.

Na última segunda-feira (23/5), o governo de Santa Catarina soltou nota reforçando a importância das medidas de prevenção e alertou para a alta de doenças respiratórias em crianças. Desde o início do ano, o estado computou 36 ocorrências do tipo nessa população, sendo que dois deles evoluíram para óbito. As duas mortes e outros 28 casos foram causados pelo vírus Influenza tipo A (H3N2).

Na semana passada, a Secretaria de Saúde de Pernambuco anunciou que dobraria o número de vagas de UTI para crianças na rede pública do estado em razão da alta demanda.

“O número de solicitações de UTI para crianças teve aumento de 3 vezes em comparação ao período sazonal do ano passado. E isso é algo que extrapola qualquer planejamento. Nesse cenário, o governador Paulo Câmara determinou a abertura de todos os leitos necessários. E, mesmo com a escassez de intensivistas pediátricos e neonatais – realidade de todo o país, vamos abrir em duas semanas 80 novos leitos, praticamente dobrando novamente a capacidade de terapia intensiva para crianças”, disse o secretário estadual de saúde, André Longo.

Dados do InfoGripe mostram que, desde o início do ano, o país registrou 35.603 casos de SRAG em crianças de 0 a 11 anos, número 43,1% maior que no mesmo período de 2021, quando notificou 24.878 ocorrências. Do total, 21.049 ocorreram entre o público de até 4 anos de idade.

Baixa imunidade

O pesquisador da Fiocruz Marcelo Gomes esclarece que outro fator que também está relacionado à alta dos casos e pode contribuir para o agravamento em alguns quadros é a baixa imunidade gerada pela falta de exposição a esses vírus durante os últimos dois anos.

“Esses outros vírus respiratórios circularam menos em 2020 e 2021, justamente por conta das medidas que a gente tomou para tentar frear a Covid. Como consequência, as crianças foram menos expostas e acabaram não construindo aquela memória imunológica.”

De acordo com o especialista, todos esses fatores, combinados, resultaram em um cenário em que exposição aumenta ao mesmo tempo em que a vulnerabilidade entre esse público também cresce.

Em termos de sintomas, o Sincicial, assim como outros vírus respiratórios, tem sintomas semelhantes a uma gripe: tosse, espirro, febre, dor de garganta e dificuldade respiratória. Diante dessas características, o especialista reforça a importância da testagem.

“É fundamental, nesses quadros, especialmente quando a gente está observando internação, que se tenha o exame laboratorial para que a gente consiga saber do que se trata. Até porque casos de gripe — Influeza — têm antiviral específico. O Sincicial, não. Ele até tem uma vacina, mas é só para grupos de risco muito específicos”, esclarece.

“Então, é importante a gente ter essa categorização bem feita para saber qual o cenário e qual vai ser o manejo adequado. Até em termos de risco para agravamento.”

Covid volta a preocupar

O último boletim InfoGripe, divulgado na quarta-feira (26/5), apontou o disparo no número de casos e internações por Covid-19 em adultos. De acordo com o relatório, 48% das ocorrências de SRAG computadas nas últimas quatro semanas são em função da Covid-19. Quanto aos óbitos, 84% das notificações foram relacionadas ao coronavírus.

A análise aponta que 18 das 27 unidades da Federação apresentam sinal de crescimento nas últimas seis semanas. Acre, Alagoas, Amazonas, Amapá, Bahia, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Roraima, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins vivem aumento de casos.

Marcelo sinaliza que essa alta indica maior intensidade na circulação do vírus. O especialista alerta ainda que a campanha de vacinação contra a Covid-19 entre crianças e adolescentes está estagnada. Dados da Fiocruz mostram que apenas 32% das crianças de 5 a 11 anos de idade estão com o esquema vacinal completo, mesmo que a campanha de imunização infantil tenha sido iniciada há cerca de cinco meses. Além disso, 60% tomaram a primeira dose de vacinas.

A razão para essa estagnação, de acordo com o pesquisador, é a quantidade de notícias falsas relacionadas à segurança e eficácia dos imunizantes, que causaram receio na população. “São coisas que nasceram alimentadas por formadores de opinião ou pessoas que têm voz ativa na população e que não dominavam o assunto. Levantaram uma série de dúvidas que não cabiam”, afirma Marcelo.

Cuidados

A prevenção contra o vírus Sincicial, assim como qualquer outro respiratório, é feita a partir do uso de máscaras em locais fechados e com grande circulação de pessoas; o cuidado de cobrir boca e nariz ao espirrar e tossir; e o isolamento em caso de sintomas.

Em relação às escolas, o cuidado deve ser redobrado. As salas de aula precisam estar bem ventiladas e, caso a criança apresente algum sintoma, deve ficar em casa até a recuperação.

“A gente tem que entender que estamos falando de algo comunitário. Eu usar ou deixar de usar a máscara não é uma coisa que implica só na minha saúde, na minha proteção. Ela tem um impacto em toda a população”, defende Marcelo.

Por Metrópoles

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