Da Redação — A viabilidade de utilizar órgãos de animais para salvar vidas humanas deu um passo decisivo com a publicação de um mapeamento imunológico inédito na revista Nature Medicine. O trabalho, que contou com a colaboração dos brasileiros Guilherme T. Ribas e André F. Cunha, analisou detalhadamente o caso de um paciente de 62 anos que recebeu um rim de porco modificado por engenharia genética no Massachusetts General Hospital.
Diferente dos transplantes convencionais, onde a preocupação central é o controle dos linfócitos T, os dados revelaram que o maior desafio no xenotransplante reside na imunidade inata. Mesmo com o uso de potentes medicamentos, células de defesa primárias, como monócitos e macrófagos, permaneceram em estado de alerta. Essa “resistência” do organismo indica que o sucesso a longo prazo dessas cirurgias dependerá de terapias inéditas, voltadas especificamente para conter a resposta inflamatória inata, e não apenas a adaptativa.
A análise tecnológica foi profunda: por meio de ferramentas multiômicas, os cientistas rastrearam o comportamento do órgão em nível molecular e espacial. Um dos avanços mais promissores foi a identificação de fragmentos de DNA do doador (dd-cfDNA) no sangue do receptor. Esses resíduos funcionaram como um “alarme precoce”, detectando danos sutis no rim antes que eles se tornassem críticos, o que abre caminho para um monitoramento em tempo real sem a necessidade de biópsias frequentes.
Cenário Global e Brasileiro Embora o paciente tenha falecido dois meses após o procedimento devido a complicações cardíacas prévias, o funcionamento do rim suíno durante o período validou a eficácia parcial da edição genética. Para o Brasil, os dados são estratégicos: com 6.670 transplantes de rim realizados em 2025 e uma fila de espera crescente, a tecnologia de xenotransplante surge como a principal alternativa para reduzir a dependência da diálise crônica, que afeta milhões de cidadãos.
A integração entre engenharia genética avançada e novas drogas moduladoras da imunidade inata é, agora, a prioridade para transformar o transplante entre espécies em uma solução de rotina para a insuficiência renal grave.


