Após Venezuela e Groenlândia, Estados Unidos passam a mirar o Brasil como território estratégico diante da disputa global por minerais críticos, terras raras e nióbio essenciais à indústria tecnológica, militar e energética do século 21
Como o Brasil virou território estratégico silencioso para os Estados Unidos na disputa por minerais críticos, terras raras e nióbio, após movimentos na Venezuela e na Groenlândia redesenharem o mapa do poder tecnológico, militar e energético global no século atual
Pouco comentado no debate público, o avanço dos Estados Unidos sobre regiões ricas em minerais críticos recoloca o Brasil como território estratégico em plena reconfiguração geopolítica do século vinte e um, entre a pressão por investimentos externos e o risco de vulnerabilidade estrutural. Em vez de tanques ou bases militares, o instrumento central agora são contratos, aportes financeiros e controle de cadeias de suprimento.
Enquanto a escalada em áreas como Venezuela e Groenlândia expõe a busca americana por autonomia em terras raras, lítio, grafite e outros insumos de alta tecnologia, o país passa a ser visto como território estratégico pela combinação de reservas gigantescas, baixa participação na produção global e presença de nióbio em escala quase monopolista. A disputa não é declarada, mas já ocorre no subsolo brasileiro.
Dos movimentos na Venezuela e Groenlândia ao foco no Brasil
O recente ataque à Venezuela, que terminou na prisão de Nicolás Maduro, e a insistência de Donald Trump em transformar a Groenlândia em ativo de interesse direto dos Estados Unidos não são episódios isolados.
— ARTIGO CONTINUA ABAIXO —
Funcionam como sinais de uma mesma lógica: garantir acesso privilegiado a regiões consideradas recurso futuro de poder global.
Na Groenlândia, estimativas apontam que o território pode concentrar até um quarto das reservas mundiais de elementos de terras raras e algo em torno de 1,5 milhão de toneladas desses minerais, além de lítio, grafite, urânio, cobre, níquel, cobalto e petróleo.
Sob o “pedaço de gelo” citado por Trump, há uma plataforma mineral que interessa diretamente à indústria tecnológica, militar e energética norte americana.
Enquanto isso, na Venezuela, a ofensiva também se articula sobre uma matriz de recursos energéticos e minerais em cenário de instabilidade política.
A mensagem para outros países com potencial mineral é clara: quem controla insumos estratégicos passa a integrar a agenda de segurança nacional das grandes potências. O Brasil entra exatamente nesse ponto da curva.
Minerais críticos e terras raras: por que viraram questão de segurança nacional
A disputa por minerais críticos deixou de ser apenas um tema econômico para se tornar política de Estado.
Elementos usados em carros elétricos, painéis solares, turbinas eólicas, smartphones, servidores, radares e armamentos de alta precisão passaram a ser tratados como infraestrutura de poder, equivalente ao petróleo em décadas anteriores.
Organismos internacionais projetam aumento de até 1.500 por cento na demanda por alguns desses insumos até 2050, ritmo muito superior à capacidade atual de extração e refino.
Em paralelo, a China hoje domina a maior parte da produção e quase todo o refino de terras raras, o que cria um gargalo estratégico para os Estados Unidos.
Diminuir essa dependência virou prioridade na agenda de Washington.
Em março de 2025, Trump assinou um decreto para impulsionar a produção doméstica de minérios críticos e terras raras, mas a geologia norte americana não é suficiente para garantir autonomia.
A saída lógica, dentro dessa visão, é diversificar fontes em países aliados ou influenciáveis. É nesse ponto que o Brasil aparece como território estratégico, mesmo sem ter ainda uma indústria robusta nessa área.
Brasil como território estratégico nas terras raras
Estudos citados por órgãos oficiais apontam que o Brasil detém até 23 por cento das reservas conhecidas de terras raras do planeta, mas responde por menos de 1 por cento da produção global.
Essa assimetria é central para entender o tipo de aproximação que vem sendo construída.
O potencial é gigantesco, a presença industrial ainda é baixa, e as áreas mais sensíveis de exploração se localizam em regiões ambientalmente críticas, como a Amazônia.
Esse descompasso cria um ambiente ideal para que o país seja tratado como território estratégico por investidores estrangeiros e governos interessados em garantir acesso antecipado a futuras cadeias de suprimento.
O caso da mineradora Serra Verde ilustra esse movimento: a empresa, primeira fora da Ásia a produzir terras raras em escala comercial, recebeu um aporte de 465 milhões de dólares do Development Finance Corporation, braço financeiro do governo norte americano.
Na prática, o financiamento permite que os Estados Unidos participem da estrutura produtiva sem depender apenas de acordos formais entre Estados.
O desenho é discreto: capital público operando via uma empresa privada brasileira, em um setor sensível, com foco explícito em minerais considerados críticos.
A configuração reforça a leitura de que o país está sendo tratado como território estratégico na disputa silenciosa por autonomia tecnológica.
Nióbio: monopólio prático e interesse geopolítico
Se nas terras raras o Brasil ainda é mais promessa do que realidade produtiva, no nióbio a situação é exatamente o contrário.
O país concentra cerca de 92 por cento da produção mundial do metal, essencial em ligas de aço de alta resistência usadas em infraestrutura pesada, indústria aeroespacial, baterias e armamentos de alta tecnologia, inclusive mísseis hipersônicos.
Essa combinação de domínio de oferta e aplicação em setores sensíveis coloca o nióbio no centro das preocupações estratégicas de qualquer potência militar.
Não por acaso, o tema ganhou destaque no debate político interno após sucessivas menções do ex presidente Jair Bolsonaro ao potencial do metal como ativo nacional.
Essa visibilidade aumentou o interesse externo e ampliou a percepção de que a soberania sobre o subsolo brasileiro tem efeitos diretos sobre cadeias globais de defesa e tecnologia.
O risco, do ponto de vista de segurança nacional, é transformar essa condição em dependência estratégica de contratos ou parcerias desequilibradas com poucos compradores.
Em um cenário em que os Estados Unidos buscam reduzir vulnerabilidades em relação à China, a posição brasileira no nióbio tende a ser observada como elemento de barganha de longo prazo, tanto comercial quanto geopoliticamente.
Pressão externa, Amazônia e dilemas de soberania
Grande parte das jazidas de interesse em terras raras e minerais críticos está localizada em áreas de floresta, regiões sensíveis ou territórios com presença de povos tradicionais.
Isso significa que a transformação do país em território estratégico para potências interessadas em minérios não ocorre em um vazio ambiental e social, mas em zonas de conflito potencial entre preservação, direitos locais e exploração industrial.
Ao mesmo tempo, a dificuldade histórica de converter reservas em produção com alto valor agregado abre espaço para que capitais estrangeiros ocupem os segmentos mais tecnológicos da cadeia, desde o beneficiamento até a integração em componentes de alta complexidade.
Sem uma estratégia própria, o país corre o risco de permanecer como fornecedor bruto de recursos em um tabuleiro dominado por critérios de segurança nacional definidos em Washington e Pequim.
A pressão por acelerar licenciamento, flexibilizar regras e atrair projetos de mineração sob o argumento de “aproveitar a janela de oportunidade” tende a crescer.
A questão central deixa de ser apenas se o Brasil será visto como território estratégico, algo que já está em curso, e passa a ser em que termos esse papel será exercido e com qual capacidade de decisão interna.
Um território estratégico que sabe quanto vale?
O avanço dos Estados Unidos sobre regiões ricas em minerais críticos mostra que o desenho da influência global está migrando do petróleo e das bases militares para cadeias de suprimento, financiamentos e participação em empresas chave.
O Brasil, com reservas expressivas de terras raras e posição dominante no nióbio, já está inserido nesse mapa como território estratégico de primeira ordem.
A diferença entre se tornar apenas uma fonte de recursos e atuar como ator geopolítico relevante passa pela forma como o país organiza políticas industriais, ambientais e externas para lidar com essa nova corrida. A disputa pelo subsolo brasileiro já começou, mesmo que ainda não apareça nas manchetes diárias.
Diante disso, fica uma pergunta para você: na sua opinião, o Brasil está se preparando de forma suficiente para negociar sua condição de território estratégico em minerais críticos, ou corre o risco de repetir o papel histórico de exportador barato em uma disputa que decide quem terá poder tecnológico nas próximas décadas?



